
Jogo responsável · 5 min
iGaming Ontario pôs de parte estudo sobre jogo problemático
Uma pasta de arquivo fechada com um clipe sobre uma secretária, ao lado de uns óculos de leitura. · Bonusjungle illustration
A iGaming Ontario encomendou um estudo sobre jogo problemático antes da abertura do mercado online da província, prometeu publicá-lo e depois decidiu retê-lo, quando os primeiros resultados saíram mais altos do que o esperado, segundo documentos obtidos pelo Toronto Star. Os resultados continuam rasurados.
A iGaming Ontario (iGO), a agência provincial que gere o mercado regulado de casino online e apostas desportivas do Ontário, decidiu não publicar um estudo sobre jogo problemático que tinha encomendado e se comprometera publicamente a divulgar, segundo documentos internos obtidos pelo Toronto Star. O Ontário tem um mercado online regulado aberto a operadores privados: a iGO gere o mercado e a Alcohol and Gaming Commission of Ontario (AGCO) define e fiscaliza as regras. Os documentos, que o jornal obteve ao abrigo da lei de acesso à informação do Ontário, mostram que a direção da iGO ficou preocupada quando os investigadores reportaram taxas de jogo problemático muito superiores às esperadas. Uma versão final entregue em agosto de 2024 nunca foi publicada, e as conclusões dos investigadores estavam totalmente rasuradas.
A iGO disse ao Star que o estudo «não cumpria o padrão necessário para orientar políticas» (tradução nossa), mas não disponibilizou ninguém para uma entrevista.
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Para que servia o estudo
A iGO encomendou a investigação nos meses anteriores à abertura do mercado online regulado do Ontário, em abril de 2022. Devia servir de ponto de partida: uma primeira medição da frequência do jogo problemático na província antes do lançamento, para comparar com ela as mudanças posteriores. A iGO ia também usar os resultados para afinar o seu programa de jogo responsável. «Aguardamos com expectativa os resultados finais do estudo e a sua partilha com o público», disse ao Star um consultor de comunicação da iGO em 2024 (tradução nossa).
O contrato foi para o Responsible Gambling Council (RGC), uma instituição de solidariedade que trabalha na prevenção do jogo problemático e que gere também a acreditação de jogo responsável exigida aos operadores do Ontário. O RGC juntou dois investigadores: Iris Balodis, da Universidade McMaster, e Michael Wohl, da Universidade Carleton. Era um estudo longitudinal que ia acompanhar o mesmo grupo de pessoas durante dois anos, em três vagas de recolha de dados. A primeira realizou-se em fevereiro de 2022, dois meses antes do lançamento.
A disputa sobre o método
Segundo o Star, notas de reunião sem data indicam que a medição de partida «trouxe taxas inesperadas de JP [jogo problemático], muito diferentes de outra investigação» (tradução nossa). A primeira vaga usou um painel de inquérito online. Os painéis online são um método comum e aceite, mas verificou-se que produzem taxas de jogo problemático mais altas do que outros métodos, provavelmente porque quem responde a inquéritos online passa mais tempo na internet do que a média.
Porque é que isto importa, na nossa explicação: uma taxa de prevalência depende em parte da forma como se chega às pessoas. Um painel online e uma amostra telefónica podem dar números diferentes para a mesma população. Mudar de método a meio de um estudo pensado para acompanhar mudanças ao longo do tempo torna as vagas mais difíceis de comparar.
Notas não assinadas propunham acrescentar uma amostra telefónica na segunda vaga e referiam que a então diretora executiva da iGO, Martha Otton, estava «muito preocupada» com os resultados e «sem confiança na investigação» (tradução nossa). Documentos sobre o papel dos investigadores sugerem que Balodis e Wohl não apoiavam uma mudança de método a meio. Numa declaração conjunta ao Star, disseram que não eram pagos pelo trabalho e que «a nossa participação assentava na condição expressa de publicarmos as conclusões do estudo» (tradução nossa). Depois da primeira vaga, as posições sobre como avançar divergiram, disseram, e separaram-se do RGC e da iGO.
«Há uma cláusula de silêncio?»
Em 2023, a iGO contratou a consultora Counsel Public Affairs para «planeamento estratégico e apoio de comunicação reativa» relativos ao estudo, mostram os documentos (tradução nossa). Notas de uma reunião realizada por volta de setembro de 2023 consideram a hipótese de os investigadores criticarem o projeto e perguntam: «Há uma cláusula de silêncio? … Se lhes dermos os dados, talvez não falem mal de nós.» (tradução nossa) Os documentos mostram que a ideia surgiu como pergunta nessas notas.
Notas de janeiro de 2025 dizem que os comentários sobre a versão final «nunca foram totalmente incorporados» e que «em setembro foi decidido» parar o trabalho no relatório, não investir mais dinheiro e não o publicar (tradução nossa). Um ponto dessa secção diz «Considerações sobre as próximas eleições»; tudo o resto está rasurado. O Star nota que o governo de Ford foi reeleito no mês seguinte.
O que dizem as partes
Numa declaração não assinada, a iGO afirmou que o mercado online do Ontário «tem alguns dos padrões mais exigentes do país, e continuamos a trabalhar com os nossos parceiros para reforçar o jogo responsável e proteger os jogadores em toda a província» (tradução nossa).
O RGC disse ao Star que, nos termos do contrato, as conclusões pertencem à iGO «e a decisão sobre como e quando publicar os resultados cabe-lhes a eles». À Gaming News Canada deu uma resposta semelhante: «Nos termos do nosso contrato com a iGO, os dados e as conclusões são propriedade da iGO, e a decisão sobre como e quando publicar cabe-lhes a eles.» (tradução nossa) Nenhuma das duas organizações quis dizer ao Star quanto dinheiro dos contribuintes custou a investigação.
O NDP do Ontário quer que o estudo completo seja divulgado, bem como o custo do contrato de relações públicas. «O mínimo que o governo de Ford deve fazer é ser honesto sobre os danos», disse a porta-voz do NDP Kristyn Wong-Tam, segundo o rg.org (tradução nossa).
Uma batalha pelos documentos que continua
Segundo o Star, os documentos só chegaram após longos atrasos e um recurso ganho junto da Information and Privacy Commissioner of Ontario (IPC), a entidade do Ontário que supervisiona o acesso à informação e a privacidade, e vinham muito rasurados. Um dos motivos invocados pela iGO para reter documentos foi um possível prejuízo para os interesses económicos da província. O Star recorreu também dessa decisão.
Segundo a Gambling Industry News, a IPC concluiu a 14 de maio de 2026 que a iGO estava em deemed refusal – uma recusa que se considera verificada – pelo atraso na resposta ao pedido, e fixou 22 de maio como prazo para uma decisão. Essa conclusão dizia respeito ao tratamento do pedido, não à legalidade de reter o estudo.
O mercado que o estudo devia medir é grande. Segundo o próprio relatório anual 2024-25 da iGO, as apostas totais chegaram a 82,7 mil milhões de C$, para 2,9 mil milhões de C$ de receitas totais de jogo. Críticos citados pelo Star apontam outros sinais de danos desde o lançamento, como mais idas às urgências por perturbação do jogo; noticiámos o estudo do ICES sobre essas idas às urgências no Ontário.
O que os jogadores do Ontário podem usar já
Nada disto muda as ferramentas que os jogadores já têm. A página de jogo responsável da iGO remete para conselhos sobre como definir limites de tempo ou de dinheiro ou fazer uma pausa. Segundo as páginas para jogadores da iGO, o BetGuard permite autoexcluir-se de todo o jogo online regulado no Ontário. A página Find Help da iGO descreve a ConnexOntario como gratuita, confidencial e disponível a qualquer hora; a página Find Help da iGO indica as formas de contacto. Veja também o nosso guia sobre jogo responsável com criptomoedas.
Mais sobre o mercado regulado do Ontário: a sanção da AGCO à theScore Bet por ofertas de cash-out, a suspensão de dois dias da PointsBet Canada e a passagem da Booming Games para 93,5% de RTP nas slots do Ontário.
Fontes

